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o Homem
Eu estava em festa. Já havia esperanças de conseguir desfazer o mau contrato para vida toda, que assinara aos 17 anos. Já estava com 30, de recém aprendia a dar os primeiros passos de minha vida adulta por conta própria e com liberdade de escolha.
A abertura da exposição havia sido um sucesso e os guardas do banco onde eu expunha se preparavam para fechar a porta, os amigos me esperavam para irmos jantar fora, ele chegou e veio falar comigo. Mostrei-lhe a exposição apressada, cansada, louca para encerrar.
Anos antes ele ministrara uma palestra no salão em cujo hall eu expunha. Na saída , acompanhado por uma senhora e duas moças, parou, olhou a exposição e assinou o livro de presenças.
Anos depois, durante um jantar amigos nos apresentaram e nos pareceu que conhecíamo-nos de algum lugar...
Eu estava dona do meu próprio nariz, feliz. Ele desvencilhava-se do seu contrato para vida toda, feito na adolescência, que é uma fase em que ninguém deveria assinar contratos.
Noutra vez jantamos com amigos e ele me emprestou seu CD The Mama"s and the Papa"s, por que eu adorei uma música que tocava quando voltávamos para casa e ele me dava carona. Achei interessante que ele abrisse a porta do carro para eu entrar e para eu sair. Havia uma conversa no ar, de que ele e minha amiga arquiteta, estariam se "observando".
Eu andava observando um professor universitário, que era moderno e nada cavalheiro e estava a me parecer cada vez mais chato. Minha amiga arquiteta também mostrou-se meio lenta.
Um dia ele me convidou para jantar, tomamos vinho enquanto ele me contou a estória de uma tartaruga que resolvia abandonar a carapaça antiga e como sentia-se desconfortável e exposta durante a troca, de um homem que renasce, e de quanto ele estava decidido a desconstruir para renovar. Depois começamos a nos encontrar mais amiúde, me visitava em casa, conheceu meus filhos, tomávamos chá e conversávamos madrugada afora.
Emprestou-me vários CDS e fiquei imaginando o que eu poderia dar em troca do Nat King Cole, que eu não devolveria jamais.
Deixei de sair com as amigas, ele não devia estar saindo com a arquiteta, pois se estava sempre comigo!
Depois da fase de conhecimento da história, veio a da investigação da anatomia espiritual. Como saber o que fazer dali em diante? Eu tinha medo, ele, receio, mas a curiosidade... A vontade de caminhar pra frente...
Depois de muito tirar medidas, achamos que nossos tamanhos combinavam, o que não o impediu de tentar fugir quando engoliu o anzol. Eu dei linha e deixei correr, ele foi até o Uruguai, pensar na vida. Quando voltou estava decidido, e eu magoada.
Nada que uma época natalina e happy new year, não tenham resolvido.
Demos por iniciado o casamento. Os meus amigos se indignaram, a antiga família dele se escandalizou. E o mau tempo começou. Nada que um casal de viventes quando se refugia um no outro, não possa agüentar.
...E meus pais assustados e as filhas dele, enojadas, mas recomeçamos a sonhar mesmo assim.
Dez anos se passaram, em 2001 nasceu nosso filho, e me sinto cada vez mais encantada com este homem, que não manda, que não pede, que sugere, que estimula. Que continua abrindo a porta do carro para mim e que à medida que o tempo passa, mais se me assemelha a um livro sem fim, quanto mais nele leio, mais quero conhecer, que me intriga, pois não consigo compreender o seu tamanho, nunca senti ter chegado a ver seu limite, mas que desgosta meu espírito radical, por que nunca faz coro, quando discutimos política e quando calço o pé e digo que pau é pau, pedra é pedra, pede que eu veja por todos os ângulos.
Infelizmente não pude demovê-lo do seu pensamento à favor do governo atual, quer sempre dizer que a maioria deve ter razão, e seu discurso até me fez votar no Lula na primeira eleição, o que me assombrou. Como pude? Faz-me entender porque o povo, a quem era ordenado que se não tivesse pão, que comesse brioche, beijou o sapo e agora aceita qualquer coisa do príncipe, afinal, brioche não é preferência nacional e ainda mais se é imaginário. Um bom botijão de gás ou um ranchinho, ou uma geladeira...
Mas eu falava de amor. Mas para falar disso tenho que falar em sindicato.
Sábado recebi um e-mail tão interessante da Anabela. Coro de queixas.
Estimulei-me e imaginei que seria bom se organizássemos um coro contra estas novas leis que foram aprovadas favorecendo os sindicatos. Fiz um convite e taquei a mandar pros contatos, estava na letra c, quando lembrei que o que a imprensa divulga, nem sempre é verdade, melhor, quase sempre é tergiversação a favor do grupo que domina o meio. Arrependi-me do e-mail. Mas a palavra proferida, a pedra atirada e o e-mail enviado, não voltam atrás.
Meu ídolo, digo marido, estava viajando. Arrependida do impulso, excluí os e-mails que havia enviado, fiz cara de santa e recebi-o escondendo a preocupação. Nunca me perdôo por ser impetuosa e nunca deixo de sê-lo, não me agrada errar na opinião e prejudicar pessoinhas que sempre são prejudicadas ou manipuladas, pessoinhas que são às vezes, espiritualmente pequenininhas, mas têm unhas grandes e podem me arranhar também. E parece que tem gente disposta a morrer, ou matar por sindicato.
Será que esta história de sindicato com todo poder, é positiva?
Domingo botei cara de aluninha compenetrada e pedi mais informações a meu professor, digo, marido, que me disse muitas coisas. Socialismo, comunismo, ética à Nicômano, niilismo de Shopenhauer, os poodles com seus penteados modernos são ridículos (eu não consigo manter a concentrarão por muito tempo, por isso acabei divagando um pouco durante a explicação), mas finalizou, "se com sindicatos é ruim, poderia ser pior sem eles".
Vai la entender a vida e o lado certo das coisas...
tomado de: Site: www.gianehawkins.art.br
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